O irritante ônibus turístico da Curitiba inventada

Que me desculpem seus moradores ou entusiastas, mas a despeito de seus predicados, Curitiba causa enervamento e irritação. Além do frio e da chuva, há meninas com muito gel no cabelo, pessoas um tanto mal-humoradas (mas quem sou eu para reclamar), edifícios de vinte andares com telhado de boneca  e todo o imenso orgulho em relação àquelas plataformas circulares de ônibus – que okay, funcionam, mas vai tentar fazer funcionar numa megalópole como São Paulo?


Mas nada causa mais mau humor do que o ônibus que circula pela cidade fazendo um percurso turístico. Ele é verde – porque, claro, Curitiba é uma cidade toda trabalhada na ecologia, apesar da maioria das árvores se concentrar em poucos bairros com mansões – e tem dois andares. Você paga R$25,00 e recebe uma cartela com cinco tíquetes destacáveis, para que possa descer em algumas paradas, conhecer as atrações e pegar o ônibus novamente. Se não sair do ônibus, todo o para lá de longo percurso leva umas duas horas e meia.

Querendo emoção e adrenalina, fique no segundo andar, que é aberto e, assim, corra o risco de ser eletrocutado pela fiação elétrica dos postes, que cruza as vias – se você se levantar, pode ter sua cabeça cortada. O ônibus tem uma gravação de voz feminina que anuncia em português, inglês e, se me lembro bem, espanhol, cada uma das paradas (veja abaixo) e conta uma historinha daquela atração. Dá para ouvir do segundo andar.

O problema é que tudo ali é fake. Muito, muito fake. O percurso do ônibus acaba por se configurar como uma espécie de via crucis para se ver arquiteturas temáticas que parecem versões reduzidas de um Beto Carrero World, com lojinhas de suvenires, mas sem montanha russa e cavalos. Vejamos: celebrando as diversas origens dos imigrantes que fizeram Curitiba ser o que é – seja lá o que for – há um Portal Italiano (“com a tradicional arquitetura da Itáliadiz a moça poliglota da gravação, mas eu que me graduei em Arquitetura e Urbanismo devo discordar um tiquinho…), um Bosque Alemão (“que lembra as mais caras tradições dos alemães” e que tem uma trilha de João e Maria e uma Casa Encantada – WTF?!), um Memorial Ucraniano, um Polonês e um Árabe. A gravação nos informa que tudo ali foi construído no início da década de 1990 – em outras palavras, à época da última administração de Jaime Lerner (urbanista muito bom, só que ao contrário).

Cafonice...

O ápice da falcatrua pós-moderna é o Jardim Botânico de Curitiba. Adoro jardins botânicos e desci do ônibus animado para visitá-lo. Ao entrar, reconheci o que tinha aprendido nas aulas de paisagismo sobre o jardim eclético francês: cercas vivas e arbustos geométricos à la Versalhes, o eixo central, o plano nobre (parte mais alta de onde se admira o todo). Para completar, uma imensa estufa de plantas tropicais, ode ao exotismo eurocêntrico e oitocentista, claramente inspirada no Palácio de Cristal inglês. “Não sabia que Curitiba era uma cidade tão antiga, a ponto de nessa época já ter um jardim botânico”, pensei. Mas a gravação mais uma vez revelou que tudo ali é simulacro, ao informar que o jardim havia sido inaugurado… em 5 de outubro de 1991!

De tão falsa e cenográfica que é, Curitiba, a cidade inventada na década de 1990 pelo acupunturista Jaime Lerner, chega a enganar arquitetos e urbanistas.
Não há humor que resista.

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Sobre Leo Name

Professor do Departamento de Geografia da PUC-Rio.

  1. Thábata Suarez

    Gente, que pena desse cidadão. Curitiba é linda e agradável. Como é que pode um cara desse ser professor da Puc? Pobre Puc-Rio é de lá também a professora que não gosta que pobre viaje de avião, né? Apesar de ser um comentário pessoal, acho que gente assim deve preservar a imagem da instituição em que trabalha. Daqui a pouco ninguém vai querer estudar na Puc-Rio, tá ficando provado que o preconceito dos professores é algo recorrente.

  2. Andressa

    O seu comentário sobre Curitiba foi o mais desnecessário que eu já li. Você deveria preocupar-se em conhecer coisas legais e que atraem sua curiosidade e não fazer um post falando mal da cidade. Imagino quanto tempo você tem sobrando! Curitiba é uma cidade fantástica. Vai bem mais além do que o ônibus “verdinho” de 30,00 reais. Tem muito lugar bacana.

  3. Noemia

    Urbanista e professor carioca que tem medo de avião, é cinéfilo, gosta de cerveja e tem péssimo humor.
    Uma pessoa assim não faz falta em nossa cidade, comentário por ele feito não ofende quem mora e visita essa cidade maravilhosa, um urbanista que ama o que faz sabe valorizar o que vê.

  4. Nossa, essa frase é extremamente mal colocada “que okay, funcionam, mas vai tentar fazer funcionar numa megalópole como São Paulo?”. Quem está falando de São Paulo? Foi projetado para ser funcional em Curitiba e cumpre esta tarefa com louvor. Você está partindo para uma hipótese sem fundamento. Como colocando um defeito apenas porque não funcionaria em SP. Se funciona em CWB, ótimo. Se não funcionaria em outras capitais, são outros quinhentos.

  5. barbara

    Por que reclama de falta de história em Curitiba, chamando tudo de fake, se o BRASIL não possui esta história que vc reclama? Antes de criticar uma cidade bonita e mais próxima possível de algo europeu, ao contrário das zonas que são os demais grandes centros brasileiros, pare e pense se em São Paulo ou no Rio não é pior.
    A ideia é simples: não quer passar frio? não venha pra cá.
    Vir pra cá para falar mal? Não gaste seu tempo e seu dinheiro. Use-o nas “belas” praias cariocas ou na avenida paulista.
    Gosto é gosto. Que podemos fazer?! Só não incomode quem gosta daqui..
    A propósito: que espécie de arquiteto é vc?

  6. Wellington Silva

    Sou morador do Rio de Janeiro, já estive em várias capitais nordestina, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, em Junho de 2013 passei meu aniversário em Curitiba, apesar da chuva e frio foi um fim de semana maravilhoso, no sábado fiz o passeio de ônibus com a primeira parada no Jd Botânico e fiz mais três paradas
    com chuva as paradas tiveram que ser em locais cobertos mesmo assim foi divertido. No domingo fomos de trem a Morretes, gostaria que o tempo estivesse bom mais chuviscou todo o tempo da parada. Morretes e pequena linda e limpa, tudo bem pintadinho e organizado o passeio de trem também foi bom, com as nuvens baixas tivemos pouca visão. Apesar dos contratempos a organização do aeroporto até o hotel,(praça Gen Osório) as ruas do centro com comercio de roupas em conta, a loja de rock, os ônibus e as pessoas que foram solicitas me fazem pensar em voltar a Curitiba com certeza e de preferencia com tempo bom. Parabéns aos governantes e a população dessa cidade que ainda tem o direito de ir e vir com segurança e qualidade de vida. Não esqueçam de visitar o Mercado Municipal no ultimo andar tem restaurantes maravilhosos e baratos.

  7. Giseli

    Que absurdo estes comentários, pura inveja de quem deve morar em uma cidade podres, velha em meio a pura favela, só …. não gostam de Curitiba, aqui o nível é outro, são pra poucos.

  8. ju

    Bom ,a pontos de vista sempre e cada um tem o seu,eu digo que pra quem é pobre e vive em meio à violência, Curitiba em seu passeio pela cidade vale a pena,afinal se você é um turista em um ambiente como Curitiba,você vai procurar olhar o lado bom que ela tem.

  9. marcos

    Sou mineiro mas moro no Rio há 2 anos.
    Qual o problema se os pontos turísticos de Curitiba são recentes? Achei a cidade sim muito bonita e organizada.
    Apesar de menor, prefiro ir ao Jardim Botânico de lá que do Rio.
    Prefiro também o parque tanguá ou tingui do que a quinta da boa vista!

  10. Sempre que viajo e conto que sou de Curitiba as pessoas me dizem: “Ah, Curitiba, aquela cidade linda! É tão limpa, tão européia, cheia de parques!”

    E aí eu digo exatamente o que você escreveu no seu post: “Não se iluda, tudo em Curitiba é fake. Os parques são mais novos que eu (e olha que sou novinha), todos feitos por Jaime Lerner, o mesmo que inventou essa história de tubos pra algum parente fabricar.”

    Adoro Curitiba, mas todo e qualquer programa de turista aqui é programa de índio. Como disse o Diego: ausência de história. Se você fuçar tem um Poty Lazaroto, um caminho do pinhão e a melhor cidade pra passar o carnaval no Brasil para quem não gosta de carnaval. Mas acaba ficando por aí…

    Pra mim Curitiba é cidade pra morar, não pra visitar. Daqui não saio para morar em cidade alguma do Brasil, mas nem que me paguem pego esse ônibus de turismo rs

  11. Thereza P. Miranda

    Não conheço Curitiba e pelo que vc descreve eu não gostaria. Porem será que vc não está “pesando um pouquinho a mão”?

  12. Diego C.C.

    só digo uma coisa: Aldo Rossi chora swarovski toda vez que vê esse portal!

    É tudo fake mesmo, mas eu sou tão fácil de agradar que confesso que curti o passeio de ônibus. Mas jamais moraria numa cidade dessas gente, da o mesmo tipo de nervoso que me dá em Brasília: ausência de história. Eu preciso morar num lugar e saber q tem patrimônio histórico, cortiço que vira inferninho a noite, monumento pixado… esse tipo de coisa.

    Fiquei mega curioso é pra saber como são as coisas na região metropolitana, algumas pessoas já me disseram que lá tem uma periferia mega fudida justamente pq o limpinho e bem produzido n é pra todos…

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