O otimismo e a burrice em torno dos 184 destinos turísticos da Copa de 2014

O Ministério do Turismo divulgou um estudo sobre viagens no Brasil durante a Copa do Mundo de 2014. E, a partir de agora, vai trabalhar 184 destinos turísticos para que 700 mil estrangeiros e 3 milhões de brasileiros circulem ainda mais no país por conta do megaevento esportivo. Repetindo o número: são ‘apenas’ CENTO E OITENTA E QUATRO destinos.

O governo jura ter dados que projetam que cada estrangeiro fará em média 3 viagens pelo Brasil durante a Copa (bando de turistões cheios da bufunfa, pelos quais a crise financeira mundial passou longe, só pode ser…). Por isso, o estudo foi montado tendo como base distâncias de até 300 km das cidades-sede, mas distâncias maiores também foram consideradas se vencidas em no máximo 2 horas por terra e 3 horas pelo ar.  A ideia do governo ao querer fazer campanhas publicitárias para tantos lugares é viabilizar a geração de emprego e renda para os municípios no entorno das 12 cidades-sede (e agradar as elites locais e arrecadar votos para as lideranças regionais, mas isso não foi divulgado). O estudo completo pode ser conseguido aqui. Abaixo, as cidades e seus estádios.

Sou eu que sou mal-humorado ou está claro que se der certo, o Brasil vira um inferno?

O primeiro problema é de estupidez geográfica. O Brasil é um país de dimensões continentais e um turista fanático por futebol que queira acompanhar o time de sua nação em todos os jogos, por aqui terá tarefa árdua. Na Copa de 2010, na África do Sul, havia 3 estádios (Cidade do Cabo, Port Elizabeth e Durban) que eram muito distantes da capital. Mas há voos diretos saindo de Johanesburgo de 1h de duração para a Cidade do Cabo e Durban,  e, o pior dos casos, de 6h para Port Elizabeth com 1 escala (consulta feita hoje no Skyscanner). Não houve nenhuma situação em que um time jogasse em Cidade do Cabo e em  seguida Polokwane (ou vice-versa), as
sedes mais distantes entre si.

Durante a Copa de 2014, qualquer um apostaria que será o Rio de Janeiro a sede eleita preferencialmente como destino tanto por estrangeiros como brasileiros que queiram conferir os jogos. É a cidade-símbolo do Brasil, a mais projetada internacionalmente, não tem jeito. Também não seria estranho imaginar que acompanhar os jogos da seleção canarinho seja, em si, atração turística. Mas até eu, que detesto futebol, já sei que só haverá chances de se ver um jogo do Brasil no Maracanã se a nossa seleção chegar à final (RISOS). Se esse milagre ocorrer, o turista fanático pela seleção terá visto o time do Brasil jogar, tendo sido o campeão da Grupo A na 1ª fase, em São Paulo, Fortaleza, Brasília, Belo Horizonte, novamente Fortaleza e Belo Horizonte e finalmente no Rio de Janeiro. O fato é que o turista de qualquer nação que queira acompanhar in loco os jogos de sua seleção terá que se deslocar excessivamente, com muita grana e disposição, o que inviabiliza a ideia desse turismo esportivo.

Mas se pode argumentar que ninguém vai conseguir ver tudo mesmo e que o Ministério do Turismo está sendo esperto ao imaginar que o sujeito verá um jogo ou dois, concentrando-se em determinada cidade, dando uma esticadinha em lugar próximo. Que eu tô sendo, de novo, mal-humorado!

Mas aí há um problemão de logística. Tendo como base o limite de 300 km de distância de Brasília, por exemplo, o estudo projeta viagens para Pirenópolis, São Jorge, Cavalcante e Goiás; de Curitiba, para Paranaguá e Foz do Iguaçu; do Rio de Janeiro, para Angra dos Reis, Ilha Grande, Búzios, Arraial do Cabo,  Nova Friburgo, Petrópolis e… Teresópolis (RISOS) e… Niterói (RISOS DESCONTROLADOS). Mas num período de férias escolares, quando muitas famílias das cidades-sede já costumam viajar justamente para estes lugares próximos, quer se aumentar o fluxo para essas rotas? Pânico nas estradas, né? Aeroporto cuspindo gente pelo ladrão: sim ou com certeza?

Há, por fim, excesso de otimismo constrangedor. O mesmo estudo aponta que um destino possível para quem estiver no Rio de Janeiro vendo um joguinho é dar um pulo em… GUARAPARI!  É muita vontade de ir à praia! Não tem humor que resista. E eu vou fugir do país.

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Sobre Leo Name

Professor do Departamento de Geografia da PUC-Rio.

  1. acho que teu ponto de vista é de que um turista percorreria varios estadios – bem, isso dificilmente seria o caso, primeiro devido a dificuldade em conseguir ingressos. De qualquer modo, voos entre regiões não tendem a tomar mais que 2 ou 3h (Rio-Poa, por ex, são menos de 2h). Portanto, nada tão horrível assim. Ainda, o planejamento de algo nessa escala envolve pensar na teia de movimentos possíveis das pessoas, não de rotas com várias paradas ou destinos pra cara turista. Portanto, é necessário planejar e oferecer opções. Mas a grande interrogação segue: como os aeroportos vão suportar essa demanda?…

    • Vinicius,

      Meu ponto – e está no post! – é que as distâncias das sedes em si são um entrave de um turismo de “percorrer os estádios” – um turismo que um torcedor fanático inglês, alemão ou francês (nações com tradição futebolística) poderia sim querer fazer (e ao menos as eliminatórias darão pra comprar pela Internet, sim!). Você fala em Rio-POA, que de fato é rapidinho, mas Rio-Manaus, POA-Manaus, Rio-Fortaleza e São Paulo-Manaus ou até mesmo São-Paulo-Fortaleza (e essa trajetória terá que ser feita para as eliminatórias do Brasil) são inviáveis porque são longas e às vezes com escalas. Conjugar isso com uma vontade do turista dar uma passadinha em Campos do Jordão, se estiver em São Paulo, ou em Guarapari, se estiver no Rio, é risível.

      E o pior mesmo é a logística, como você também apontou.

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