Carnaval no Rio virou filme de terror

Nenhum dia é mais apropriado do que uma sexta-feira 13 para se falar no inferno que se transformou o carnaval do Rio. A abertura não oficial (que na verdade é oficial) já aconteceu no último dia 8 e a cidade pouco a pouco é invadida por gente demais, feliz demais, bêbada demais, aloprando demais.

Sou do tempo de quando ficar no Rio de Janeiro no carnaval era bom programa para os mal-humorados que odeiam folia:  turistas que vinham à Cidade Maravilhosa concentravam-se majoritariamente nas escolas no Sambódromo e a maioria dos cariocas viajava – a cidade virava um deserto, vez por outra você esbarrando com alguém fantasiado nos vagões do metrô, que nessa época funciona 24 horas por dia. E porque cinemas e teatros faziam promoções, o feriado do Rei Momo podia virar um viradão cultural soft.

O que mudou? Os blocos de carnaval de rua, que já tiveram sua lista de 2012 divulgada. Se você, turista desavisado, quiser vir ao Rio para curtir uma praia ou uma pedalada na Lagoa, vai dividir espaço com hordas de gente pulando e dançando de dedinhos para o alto (porque né, samba no pé passa bem longe dos blocos da moda…).

Muito antigos e tradicionais na cidade, por anos os blocos de carnaval de rua ficaram relegados a subúrbios sem investimentos turísticos; ou eram organizados por grupos de amigos que espontaneamente resolviam brincar juntos e que, pouco a pouco e com perdão pelo trocadilho, viam a coisa crescer de tamanho – caso do Sovaco de Cristo e do A Rocha.  À bem da verdade, o poder público os tratava claramente como atração de segunda linha, mas paulatinamente  foi investindo em sua publicidade, o que fez aumentar sua procura.

Para se protegerem de grandes muvucas, muitos blocos passaram a dar informações desencontradas, divulgar horários e dias trocados, para dificultar que comparecessem foliões de ocasião, farristas, menos assíduos de cada bloco. A Prefeitura, em nome da famigerada ordem pública, não achou graça e em 2010 passou a fazer um processo de autorização de todo e qualquer bloco de carnaval.

Na ocasião, liberou simplesmente 461 blocos para desfilarem, a maioria deles, claro, na turística Zona Sul! Uma insanidade: se em 2009 apenas 269 blocos haviam sido liberados, muitos outros a Prefeitura não quis tomar conhecimento e aconteceram com mais tranquilidade. Mas em 2010 obtiveram licença praticamente todos aqueles que se dispuseram a passar pelo processo de autorização, inclusive blocos novos, que nunca haviam desfilado; inclusive “blocos” de música eletrônica, axé, sertanejo ou comandados pela Preta Gil (me desculpem o mau humor, mas nenhum desses é bloco de carnaval).

Ao obrigar a divulgação precisa de dias e horários, que passaram a constar no calendário oficial do carnaval, todos os blocos bombaram ao mesmo tempo. Se até há pouco tempo eram muitos os blocos de grupos pequenos ou médios de foliões, há blocos agora com cordão de isolamento e camiseta-abadá. E a prefeitura se vê obrigada a diminuir os blocos na Zona Sul, cada vez mais abarrotada (ver gráficos acima).

Moro no Rio – no Posto 6, na divisa entre Copacabana e Ipanema (RYCAH!) – e ano passado me senti refém: ir à padaria, ao supermercado ou andar pela orla eram atividades impossíveis.  Contrariando o bom senso, resolvi aceitar o convite de um casal de amigos para ver o desfile das escolas de samba, pela tevê, em sua casa no Rio Comprido (Zona Norte). Achando-me muito esperto, andei até a estação de metrô da praça General Osório, perto do meu apê. Burrice total: funcionando sem parar e rodeada de blocos praticamente ininterruptos, a estação de metrô abria as portas quando um trem chegava, deixava que algumas pessoas entrassem e rapidamente fechava as portas novamente. Evidentemente não dava vazão à multidão e o caos era a ordem (Sabe aqueles filmes de zumbi em que o clímax se resume a uma horda de infectados  que cerca o local onde os sobreviventes mantêm-se firmes e fortes? IGUALZINHO!).

Pegar taxi era tarefa ingrata, e eu só consegui porque depois de duas horas tentando ser civilizado, literalmente me joguei na frente de um, gritando e fazendo cara de monstro. Não tem humor que resista.

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Sobre Leo Name

Professor do Departamento de Geografia da PUC-Rio.

  1. Eu já desisti dessas festas folclóricas..é sempre uma dor de cabeça …adorei a sua página e gostaria de ver algumas dicas de como escapar desses programas de “índio” … abraços

    • Victor, uma dica você já está realizando: que é fugir desses programas que são mais turísticos, mais de masa e, portanto, se sabe de antemão que serão uma roubada.

      Obrigado pela visita!

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  4. Thereza P. Miranda

    Dessa vez não achei engraçado pq não tem graça mesmo. Com um pouquinho de exagero seu mau humor está 100% certo.

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