Roteiro alternativo no Rio: Cinelândia

Mesmo mal-humorado, gosto muito de minha cidade.   Apesar de estarmos numa época em que o Rio de Janeiro fica um horror,  postarei sobre alguns passeios e lugares da Cidade Maravilhosa,  de modo a honrar meu amor por ela. Mas indicarei roteiros em menor ou maior grau “alternativos”, que passem longe das calorentas  praias, sempre apinhadas de gente.

Comecemos pela Cinelândia,  que é o nome popular da região em torno da Praça Floriano, Centro do Rio. Trata-se de quarteirão construído no início do século XX, para ser a versão brasileira da Times Square, por Francisco Serrador, empresário espanhol da área de entretenimento – ele tinha hotéis, cassinos, cinemas e teatros. Há quem diga que ele foi responsável, por causa de sua ligação com o cinema, pela popularização do hot dog estadunidense no Brasil.


O Quarteirão Serrador, como ficou conhecido o projeto, foi construído sobre o terreno comprado em 1917 e contou com vários cinemas, salas de escritórios e lojas, que serviram de chamariz para hotéis, restaurantes e casas noturnas na região. A área então já possuía: o Theatro Municipal (1), que é uma versão brasileira da Ópera de Paris, hoje com 102 anos e recém-restaurado; o Palácio Pedro Ernesto (2), que era a Câmara Muncipal, mas hoje é a Assembleia Legislativa; a suntuosa  Biblioteca Nacional (3);  e o Palácio Monroe (4), lindíssimo edifício em estilo eclético, infelizmente demolido arbitrariamente na década de 1970 para a construção do metrô, um trauma até hoje na cidade.

Os requintados restaurantes e as casas noturnas para o high society não sobreviveram, mas os escritórios ainda estão lá (eu mesmo trabalhei uma época no Edifício Serrador, que é lindo). A maioria dos cinemas na Cinelândia está fechada. Resta apenas o Cine Odeon (5),  inagurado em 1926, onde há programação variada: além do circuito de exibição normal e de ser um dos principais palcos entre setembro e outubro do Festival do Rio,  na primeira sexta-feira de cada mês há a Maratona Odeon, mostra de filmes que se estende por toda a madrugada; o Cineclube LGBT, que uma vez por mês exibe curtas de temática gay seguida de festa dentro do cinema;  e o Cachaça Cinema Clube, outro evento de exibição de curtas que, como o nome indica, serve aguardente a seus frequentadores.

Mesmo sem os cinemas que lhe deram o nome, a Cinelândia ainda é um local animado da cidade, graças aos seus bares, restaurantes e atrações culturais. O bar mais famoso é o Amarelinho (6), fundado em 1921 e que, apesar da simplicidade, merece uma visita. Vale lembrar que a Cinelândia está a poucos metros do Passeio Público do Rio, é perto do Aterro do Flamengo e também é muito próxima à famosa Lapa (para quem for até o bairro da boemia de metrô, a estação a se saltar é a Cinelândia, então vale se programar para uma visita).

A Cinelândia também conta com prostitutas e travestis que tentam caçar executivos e trabalhadores em geral nos dias úteis, vez por outra tem feira de livros e recentemente foi o epicentro do movimento ativista Ocupa Rio, inspirado nas manifestações de Nova Iorque. Em outras palavras, é um local de muita pluralidade e diversidade, que não deixa ninguém, até mesmo eu, mal-humorado.

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Sobre Leo Name

Professor do Departamento de Geografia da PUC-Rio.

  1. E o Teatro Municipal Serrador?

  2. Lembro qd fui a primeira vez ao Amarelinho. Tinha lido no livro do Samuel Wainer. Sério, sinto o cheiro daquele dia até hoje. Maravilha essa parte do centro.

  3. Pingback: Roteiro (não muito) alternativo no Rio: Lapa « O guia do viajante mal-humorado

  4. Daniel Brum

    A gente vê essas fotos e não consegue deixar de imaginar como seria Rio hoje se não fosse toda a destruição q deu lugar a uma arquitetura medíocre na maior parte das vezes. Ainda assim, o Centro do Rio tem essas belezas q as outras capitais do país só chegam perto, nunca superam. Ah, tem tb o Café Colombo, lugar q prum turistão como eu é imperdível – minha amiga Odete costumava dizer q é um pedacinho de Paris no RJ. Fechando os ouvidos pra não ouvir português até engana. 🙂

    • Hahahaaha, se esforça tanto para não ouvir português que grava errado o nome das coisas. É CONFEITARIA Colombo, Dani, não CAFÉ. É perto da Cinelândia, mas não S U P E R perto. É na Rua do Ouvidor.

  5. Pingback: Roteiro alternativo do Rio: vá a Vargem Grande… Antes que acabe « O guia do viajante mal-humorado

  6. Luciana Gennari

    ADORO o centro do Rio, é um dos lugares da cidade que me deixam feliz (a despeito do mal-humor)! Vale entrar na Biblioteca Nacional, eles fazem visita guiada para turistas, e no Centro Cultural Justiça Federal, que é lá do lado e tem um café bom demais. O Palácio Monroe (que Deus o tenha) foi demolido com a desculpa da construção do metrô (balela, o traçado da linha foi feito de modo a preservar o prédio), mas o que estava por trás era a querela entre os modernistas e o legado eclético da cidade… com a máquina progressista a todo vapor, só nos restou mesmo o vazio ironicamente batizado de Ghandi.
    Aliás, parabéns pelo blog, não comento muito mas leio TOOODO!

    • Obrigado, Lu!

      É… tem a briga dos modernistas né? Li em algum lugar que o Geisel não autorizou tombamento do Monroe, instrumento que alguns tentaram usar para preservá-lo, com a premissa de que ele bloqueava visão de um bem mais importante, o Monumento dos Pracinhas – que, tudo bem, acho um projeto genial e simples, mas ele é visto de mil outros lugares. Sabe se é verdade?

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