Roteiro alternativo no Rio: vá a Vargem Grande… Antes que acabe

O Rio de Janeiro é conhecido pelo seu roteiro de carnaval, praia, sol, palmeira e água de coco. Esse é o imaginário sobre a Zona Sul, mas o Rio – thank god! – está longe de ser só isso, é uma cidade complexa. E se a Zona Norte oferece subúrbios muitas vezes fascinantes, a Zona Oeste oferece a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes – okay, isso é um presente de grego! –, que têm praias, mas também bairros como Vargem Grande, que parecem de outro tempo, de outra cidade… Ou melhor, nem parecem muito “cidade”, preservam ainda aquela cara de “coisas do interior“.

Vargem Grande, Vargem Pequena e Camorim são os bairros de menor densidade populacional da capital carioca e estão na Baixada de Jacarepaguá, área entre os maciços da Pedra Branca e da Tijuca e a praia. Por essa condição fisiográfica – vasto terreno plano perto do mar e junto a paredão rochoso –, é naturalmente um bolsão de água. E, no passado, quando contava com engenhos e era a zona de abastecimento rural da cidade, viajantes a descreviam como paraíso de brejos, mangues e restingas.

Voltei a esses bairros ontem, com um grupo de pesquisadores do Rio e de São Paulo. Havia me esquecido o quanto é preciso ter disposição para se chegar nessa parte da cidade. É longe – da Zona Sul, pode levar até duas horas, dependendo do dia e do nível de engarrafamento. Consiga, então, um carro, um micro-ônibus ou uma van e curta o quanto a paisagem carioca vai se transformando pelo vidro da janela: pois Vargem Grande é totalmente diferente do Recreio, que é bem diferente da Barra, que não se parece nem um pouco com a Zona Sul…

Boa parte da ruralidade do passado ainda está presente. É comum se encontrar no caminho casas do início ou meados do século XX, pequenas áreas agropastoris, galinhas e outros bichos. Essa área das “Vargens” (Vargem Grande, Vargem Pequena e Camorim) é densamente vegetada e com baixíssima verticalização. Ali se está, a bem da verdade, dentro de uma floresta urbana. Ah… E é nesse bairro que mora a Xuxa – okay, isso também é presente de grego.

Mas infelizmente as áreas densamente verdes devem ficar por lá por pouco tempo e até mesmo a Xuxa pode se mudar – que xato, né, baixinhos? Por décadas, a legislação carioca permitiu que só pudessem ser construídas edificações de até dois pavimentos e em terrenos enormes, de 10.000m², por toda área das Vargens. Em outras palavras, restringindo-se o potencial construtivo, os bairros mantiveram baixa ocupação e muitos terrenos vazios. A lei ajudou, portanto, a preservar a ruralidade desses lugares, que além de ser atraente para moradores, turistas e visitantes, auxilia economicamente populações locais que vivem de atividades agrícolas. Entretanto, em 2009, a Câmera dos Vereadores aprovou um projeto de estruturação urbana, o PEU das Vargens (PEU é um instrumento jurídico para uso e ocupação do solo, específico do Rio), que alterou drasticamente os índices para a construção em Vargem Grande, Camorim, Vargem Pequena e também nas partes ainda vazias da Barra da Tijuca, de Jacarepaguá e do Recreio dos Bandeirantes. Em Vargem Grande, por exemplo, algumas áreas saltaram de no máximo 2 pavimentos para 9 pavimentos e terrenos de exíguos 360m² passaram a ser permitidos.

A lei, que foi editada, votada e aprovada a partir de uma chantagem sobre a realização das Olimpíadas, é um presentão para o mercado imobiliário, mas uma ameaça a essas áreas frágeis, ambientalmente sensíveis, e que prestam importantes serviços ambientais para a cidade como um todo. A ocupação da Barra e do Recreio a partir da década de 1970 já foi impactante o suficiente para que os brejos, mangues e restingas estejam sumindo a olhos vistos. E todos sabem dos efeitos negativos da ocupação destes bairros, sem nenhuma provisão de infraestrutura: as lagoas de Marapendi, de Jacarepaguá e da Tijuca, no passado limpas e belíssimas, hoje são fétidos depositários de esgoto.

Obras destes edifícios altos já vêm acontecendo por todo o bairro e… Vamos combinar, né? Pensem no impacto de empreendimentos de vários pavimentos num bairro com feições “rurais”, como Vargem Grande: mais gente, mais esgoto, mais necessidade de abastecimento de água, mais produção de lixo, mais engarrafamento, mais poluição, mais impermeabilização do solo, mais inundação em dia de chuva (sobretudo nesse último item, com impactos para toda a cidade). Não tem como não ficar de mau humor, não tem como não achar absurdo.

Felizmente, o Ministério Público do Rio de Janeiro entrou no meio do ano passado com ação que pede a anulação desta nova lei. Mas a justiça é lenta: nem o pedido de suspensão da lei, por liminar (o que impediria que novas construções sejam realizadas até a decisão final do processo), foi aprovado.

Enquanto isso, tudo vai esvaindo-se pelo ralo. Não há humor que resista.

NOTA 1: Este é o segundo post de uma série sobre roteiros longe das praias e da muvuca do Rio de Janeiro. O primeiro deles foi sobre a Cinelândia, postado dias antes da tragédia do desabamento dos três edifícios.

NOTA 2: Quem tiver interesse pelo tema, pode aqui ver parte dos estudos da PUC-Rio sobre os impactos da nova lei, a pedido do MP, além do plano original de ocupação da área, feito na década de 1960 por Lúcio Costa. A nova e absurda lei pode ser consultada neste link.

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Sobre Leo Name

Professor do Departamento de Geografia da PUC-Rio.

  1. Rafael

    “Vargem Grande, Vargem Pequena e Camorim são os bairros de menor densidade populacional da capital carioca”

    O certo seria “capital fluminense”,a cidade do Rio é carioca mas o estado não é.Sendo a cidade capital do estado,o certo é dizer “capital fluminense” como em São Paulo o correto é dizer “capital paulista” e não “capital paulistana”.
    cidade do Rio = carioca
    estado do Rio = fluminense

  2. Pingback: Roteiro (não muito) alternativo no Rio: Lapa « O guia do viajante mal-humorado

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