Em Alto Paraíso, com paulistanos sem-noção e o filho da minha amiga

Era 31 de dezembro de 2002. Eu estava na mística cidade goiana de Alto Paraíso, com três amigas, e vínhamos de São Jorge, onde havíamos acampado uns dias. No dia seguinte, Lula seria empossado presidente da república. A ideia, típica de quem é muito jovem e não tem nada a perder, era fazer um passeio na cidade dos ETs, passar o Réveillon no ônibus indo para Brasília e, ainda que com muito sono, ir à posse. Toda a família de uma delas, bem petista, estava na capital do cerrado para passar junto as últimas horas do mandato do tucano FHC. E aí ela preferiu voltar cedo e as outras duas a acompanharam.

Eu fiquei, porque tinha marcado com um filho de uma amiga que era “artista-poeta-guia de turismo” em Alto Paraíso. Havia combinado que ele me levaria ao Sertão Zen, trilha que leva a uma linda vista de sete cachoeiras, e não queria furar. Como o passeio era meio longo e meio caro, ele logo me disse:

– Vai se despedir das suas amigas, compra água e alguma coisa pra comer, que enquanto isso eu arranjo mais um pessoal pra ir com a gente, pro passeio não ficar caro pra você.

– A gente consegue água no meio do caminho? – eu perguntei preocupado.

– Claro! Uma das características do Sertão Zen, que é uma paisagem de cerrado, é a existência de diversos olhos d’água ao longo do percurso – mesmo os guias que são filhos da nossa amiga mantêm aquela lengalenga pseudo-didática e entusiasmada, que mais parece verbete de enciclopédia.

Antes que ele continuasse, saí correndo para cumprir a ordem. Vejam bem, eu na época era até mais gordinho e possivelmente mais atolado que hoje, mas eu passei a minha adolescência fazendo trekking com um grupo de amigos. Então, é claro, eu já estava vestido com uma calça cargo cheia de bolsos; já tinha, of course, pedido pro filho da minha amiga arranjar alguém pra deixar minha mochila na casa dele pra aliviar meu peso; e, evidentemente, comprei apenas uma garrafinha de água mineral (para ser constantemente enchida nos tais olhos d’água) e um pacotinho de água e sal (para ser consumido moderadamente no percurso).

Com um item em cada bolso, voltei animado para iniciar o passeio. O filho da minha amiga também estava animado:

– Consegui um casal de paulistanos super bacanas pra ir com a gente. Eles disseram ter MUITA experiência em caminhada.

– Que legal! – eu respondi.

A gente só vai ter que esperar um pouco porque eles foram ao mercadinho comprar umas coisas.

Eu estranhei tanto o binômio “paulistano-bacana” quanto o ato de ir ao mercado antes de um longo dia de trekking. Não deu outra: quando o casal chegou, cada um deles estava com uma mochila de 2×2 metros nas costas, preenchidas com garrafas de 2 litros de água (!!!), maçãs, bananas, biscoitos elma chips,  frutas secas, iogurtes, chocolates e outros quitais.

Muito experientes, claro.

A paisagem ao longo de todo o percurso nessa trilha do Sertão Zen é realmente muito surpreendente – sobretudo para quem, como eu, está acostumado com paisagens de Mata Atlântica. Existem grandes áreas de campinas, abertas, vegetação bastante seca, árvores retorcidas e os tais olhos d’água.  Havia também percursos planos entrecortados com subidas às vezes bem íngremes e muitos, muitos mesmo, caminhos entre pedras. Não era uma trilha difícil, mas não era, assim, facinha.

Mas ao invés de curtir passeio tão bonito, o tal paulistano (um careca magricela com chapéu de caubói e óculos escuros de marca) quis, entre uma dentada e outra numa maçã ou banana e uma golada no tonel de água que carregava às costas, tirar onda sobre os lugares que já tinha visitado. Perguntou que trekkings eu já tinha feito. Eu pensei em não responder, porque no fundo ele estava querendo medir pau comigo na frente da esposa, mas respirei fundo e disse ter várias vezes feito a Pedra do Sino, em Teresópolis, e uma vez toda a Serra da Bocaina a pé. Daí ele me pergunta eufórico:

– Você já viu onça?

– Só na novela da Juma Marruá!

– E jacaré?

– Só naquele filme ruim, “Crocodillo Dundee” – respondi mal-humorado.

– Então você não viu nada, meu! Eu já vi onça e jacaré na Austrália.

Eu fiz aquela cara de “E o Kiko?”, mas não adiantou. Dá-lhe ele desembestar a falar o que tinha feito ou deixado de fazer com as onças e jacarés da Austrália. A mulher, pra lá de rechonchuda e sardenta de cabelos quase ruivos, se limitava a dar risinhos e gritinhos de satisfação, e dizer o quanto ela tinha medo desses bichos e o marido habilmente a havia transformado numa trekker de primeira.

– Mas um dia você vai ver onça. É que você é muito novinho e inexperiente – o maridão arrematou.

“Se inexperiente fosse, com essa mochila imensa estaria”, eu pensei, mas não disse, porque no fundo sou bem-educado, apesar de mal-humorado.

Desisti do sujeito e para encerrar qualquer discussão comecei a puxar assunto com o filho da minha amiga sobre… a mãe dele! Entre suas lembranças da infância e declarações de saudade que ele sentia por ela, além dos vários elogios que fiz à minha querida amiga, o paulistano sem-noção não tinha mesmo como entrar de penetra na conversa. A viagem seguiu mais tranquila, faltavam poucos minutos para chegarmos ao ponto em que tínhamos a tão desejada vista das cachoeiras, eu já tinha quase esquecido daqueles chatos…

Mas aí ouvimos um urro. Não era um gritinho qualquer. Era gutural, ecoou por toda a área e deve ter afastado por semanas milhares de animais, comprometendo a biodiversidade local. Viramos para trás e vimos a moça paulista estendida no chão, se contorcendo toda, como se fosse a Emily Rose. Possessão ou epilepsia? Nenhuma das duas, logo soubemos, porque o marido desesperado gritou:

– Meu Deus, ELA ROMPEU OS LIGAMENTOS SEMANA PASSADA! Devem ter rompido de novo!

Eu e o filho da minha amiga nos olhamos, atônitos. “O que essa feladaputa tá fazendo aqui se ela rompeu os ligamentos?”.  O filho da minha amiga tentou ver se ela conseguia pôr os pés no chão: não. Fez massagem para ver se a dor passava: não.

Não havia jeito, o passeio tinha que terminar e… não veríamos as tais cachoeiras e…  tínhamos que levar aquela moça — que digamos, não era nem um pouco magricela como o marido — nas costas e… tínhamos que carregar aquelas mochilas cheias de tralhas. Não me fingi de solidário, logo disse:

– Ela não carrego, porque sou atolado e vou deixar ela cair. Passa-me essas mochilas pra cá.

O filho da minha amiga e o marido se revezaram na tarefa de levar a moça no lombo, agora em descidas íngremes e ao som de gritos guturais que não cessavam. Tínhamos saído cedo prum passeio de 5 horas mas, naquela situação, vimos a noite chegar e tudo ficar escuro (não tínhamos lanterna), tendo uma bagagem extra à tiracolo – literalmente!

Quando pisamos em terra firme, eram mais de dez horas da noite e agora eram os dois rapazes que urravam com dores no joelho. E eu tinha que pegar minha mochila na casa do filho da minha amiga, tomar banho, comer alguma coisa e pegar um ônibus para Brasília às 23h55min. Consegui com agilidade e desempenho de Daiane dos Santos.

Como o filho de minha amiga é muito bem-educado, antes de se despedir do casal sem-noção ele falou misticamente sobre o ocorrido, dizendo que a paulista feladaputa sardenta tinha que entender aquilo tudo como sinal para cuidar melhor de seu corpo e sua alma, procurar a reflexão, o autoconhecimento e o recolhimento. Eu teria dito “minha quêridãããn, fica a dica: da próxima vez que romper os ligamentos, segura o facho do seu marido e fica em casa com ele, no romance, pra não foder com o passeio dos outros em pleno dia 31 de dezembro, tá”?

Isso porque o casal paulistano era super bacana e experiente em caminhadas, certo?

Não tem humor que resista.

 

Anúncios

Sobre Leo Name

Professor do Departamento de Geografia da PUC-Rio.

  1. Patricia

    Relato idiota e racista….sou “paulistana babaca” e gorda..eu amo o rio e sei que lá têm pessoas maravilhosas, mas seres como vc, me deixam com nojo e me fazem duvidar do meu conceito sobre cariocas. Professor? dúvido.hahahahaha

  2. Pingback: Brasília é um saco, mas tem o céu mais bonito do mundo « O guia do viajante mal-humorado

  3. Fer

    ahahahahahahahahhahahahahahahahahahahahahahahahahahah

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: