Brasília é um saco, mas tem o céu mais bonito do mundo

A primeira vez que fui a Brasília foi em 2003, como já foi relatado aqui. Brasília é um saco: desproporcional em sua monumentalidade em concreto, de percursos quase totalmente motorizados, um sol de rachar mesmo no inverno que valida com maestria a expressão “Jesus apaga a luz”.  Sou um pedestre assumido, adoro andar a pé, mas carro, caralho, é algo que eu D E T E S T O – nem dirijo, aliás nem tenho carteira – e então a cidade me irrita um bocado por não permitir a flânerie descompromissada. Depende-se do carro para tudo e o sistema de transportes é um pandemônio. Mas tem o céu. Não me lembro agora se é o Niemeyer ou era o Lucio Costa, arquitetos que construíram a capital do cerrado, que falava o quanto a abóboda celeste do planalto central teria sido determinante na concepção plástica de Brasília, sempre visando a não rivalizar a volumetria das edificações com o horizonte emoldurado em azul profundo. É lindo, céu mais bonito não há.

Na primeira vez que fui à cidade, lembro-me de ter quase ter virado católico ao me surpreender com os anjos dentro da catedral do Niemeyer, circundados por um céu em vitrais azuis. É um dos projetos arquitetônicos mais bonitos e bem feitos do mundo. E, Niemeyer tem razão, só um ateu como ele conseguiria subverter a lógica formal de igrejas a esse ponto, mas em prol do sentimento religioso: sendo totalmente desrespeitoso no uso da forma, Niemeyer conseguiu criar livremente e transmitir um ideal de divino que é comovente, dá vontade de ajoelhar, chorar e rezar.

Também na primeira vez que estive lá, lembro-me de ter visto a Esplanada dos Ministérios e pensado: “nossa, é realmente muito lindo”. Mas imediatamente ter também pensado: “Mas eu não moro aqui nem fudendo”. Brasília parece uma maquete – okay, sei que isso é um clichê –, parece muitas vezes não ser habitada por ninguém, talvez por ETs.

Voltei em julho de 2011, para visitar uns amigos. Continuei-a achando um saco, mas fiz programas mais de “turistão”. Fui a museus, visitei o Congresso Nacional, comi em vários restaurantes e dei um pulo no Vale do Amanhecer (que merece um post à parte).

Achei a cidade menos desumana do que da primeira vez. Há ruas como a W3 e suas imediações que se parecem mais com a cidade “tradicional”/”normal”, com pessoas andando na rua a pé e bastante movimento. Dá pra se imaginar morando ali. Fiquei muito surpreso com o fato do salão do Congresso Nacional parecer muito maior na televisão do que é realmente. E o do senado, que não pude visitar por estar em obras, é menor ainda.

Descobri vários restaurantes bons pacas, que rivalizam FORTE com os de São Paulo. Seus habitantes se dividem naqueles que amam e odeiam a cidade e alguns dizem que com algum sacrifício, dá pra viver sem carro (mas tem que ter MUITA disposição). O céu continua o mais bonito do mundo. Apesar de não poder dizer mais que ali não moraria “nem fundendo”, só moraria em Brasília se me dessem trinta mil reais por mês.

Adicional de depressão. RÁ.

Anúncios

Sobre Leo Name

Professor do Departamento de Geografia da PUC-Rio.

Um Comentário

  1. Maisa

    é fi nessa Brasilia aqui é uma bosta sorte que você mora ai no Rio de Janeirol 😦

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: