Lima tem praias, surfistas, verde e alguém que ama o André

Lima é a única capital latinoamericana sulamericana litorânea, com costa e praias (UPDATE: havia escrito errado, mas não me venham dizer que aquele rabicho faz com que Buenos Aires e Montevidéu tenham praias. Okay, tem Caracas, mas deixa pra lá). Não o escolhi pensando nisso, mas o hotel Runcu Miraflores, onde me hospedei,  localiza-se na Avenida de La Aviación, a uma quadra do mar. Do aeroporto até o hotel, percorri um longo caminho pelas praias.

O aeroporto fica numa área um tanto empobrecida (e ao mesmo tempo com edificações sendo construídas a todo vapor), mas logo o taxista Bernardo, que me conduzia, tomou uma via expressa chamada Circuito de Playas. A geografia dessas praias em si é interessante: diferente das praias do Brasil, a faixa junto ao mar é de cascalho e de areia muito grossa, é muito estreita e está espremida junto a enormes rochedos.

Isso não é exatamente bonito e não haverá fotos suficientemente claras para descrever meu pavor (a máquina estava guardada, tirei as fotos com o celular, estava morrendo de sono…), mas o tal circuito de praias é uma via de aprendizado expresso do que vem a ser segregação espacial, injustiça ambiental e urbanismo de privilégios.

Explico, porque as fotos não deixam isso muito claro: quanto mais perto do aeroporto, onde moram pobres, mas imunda, deserta e abandonada era a praia – e salvo efeito de alucinação provocada pelo sono, cheguei a ver montanhas de lixo e entulho e muitos tratores os revirando; quanto mais perto de Miraflores, uma das partes mais nobres da capital peruana, mais ciclovias e quiosques bonitinhos surgiam através de um desenho urbano cuidadoso, diante das janelas de mansões e edifícios de luxo no alto dos penhascos. É estranho, às vezes repulsivo e tal contraste foi um péssimo cartão de visitas da cidade.

(UPDATE 20/02:  A taxista que me levou até o aeroporto para pegar o maldito voo para Cusco me explicou melhor o lance das praias: há entulho sim, mas é porque estão revirando a terra para urbanizar as praias. O que vi eram tratores e caminhões fazendo terraplanagem. Mas isso não elimina a segregação. Os serviços estão muito mais a pleno vapor quanto mais perto se está de Miraflores)

Não sabia – porque sou meio tosco e estúpido na hora de reservar hotel e porque não tenho saco para ler guias turísticos antes de viajar – que a Avenida de La Aviación fica numa parte um tantinho afastada da agitação de Miraflores (praticamente circunscrita aos arredores do Parque Kennedy). Mesmo assim, ao chegar, resolvi flanar.

Levei um susto. Porque nos arredores só haviam edifícios acanhados e um tanto toscos, embora claramente haja uma pulsão imobiliária (pois havia canteiros em vários terrenos). Junto à praia, só havia edifícios incomodamente parecidos com os da Barra da Tijuca, tipo de arquitetura que não viajaria em sã consciência para ver.

Depois fiquei sabendo que um apartamento ali não custa menos que 500 mil dólares. É bairro de gente rycah.

Estava perto de uma área bem verde, rochosa, com caminhos de desenhos paisagísticos – se não me engano o nome correto é Parque Yitzhac Rabin. É bonito.

E pelo visto tem gente apaixonada andando por ali. E que escreve em português.

Detalhe curioso: jamais imaginei que haveria surfistas em Lima. Nessa áreas eles brotam feito pokémons, é comum vê-los nas ruas e em frente ao meu hotel havia um comércio de aluguel de pranchas de surf (Logo soube que estava havendo no fim-de-semana um campeonato internacional de surf em Lima!!!!).

Por ali também é possível ver parapentes por nada módicos 160 soles. Eu JURO que quis andar num desses trecos, mas no dia que decidi vencer o medo de altura e encarar as condições climáticas não estavam boas, e os voos não estavam ocorrendo.

O que achei absurdo: precisava fazer um ESTACIONAMENTO na beira do mar? Isso é que é cidade onde o privilégio deixa marcas na paisagem!

E isso realmente me deixa de mau humor.

NOTA: Para ver todas as fotos do caminho do aeroporto ao hotel e desse primeiro passeio, clique aqui e aqui.

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Sobre Leo Name

Professor do Departamento de Geografia da PUC-Rio.

  1. Pingback: Tudo ao mesmo tempo em Miraflores: entre buzinaços, espelhos e marcas « O guia do viajante mal-humorado

  2. Eu acho que esse circuito das praias foi feito depois, tipo recentemente. Porque Lima mesmo é no “barranco”, né, lá em cima. Essa parte de baixo teria sido feita depois, justamente pra resolver o trânsito, estradas expressas. Eu acho apenas, não estou certa, mas é que tem uma parte que é um tunel enooorme entre um lado do barranco e outro e acredito que o guia falou sobre isso, que aquele tunel e a via expressa eram recentes.
    O aeroporto fica perto do porto de Callao, né? É uma parte bem antiga, onde os espanhóis embarcavam e desembarcavam os produtos para a Espanha, mas ficou abandonado e a cidade “rycah” cresceu pra cá, Miraflores, Barranco.
    Aliás, naõ sei se vc foi a Barranco, mas vc ia curtir a arquitetura de elá, mais preservada e colonial, mas diversa, sem esses condos ridículos da orla de Miraflores.
    abs,

  3. maria alice

    taí: nunca pensei que houvesse um campeonato internacional de surf em LIMA! vivendo e aprendendo!

  4. Tambem tem um parque do Rabin em Botafogo. Quem foi esse cara?
    By the way, é triste ver essa segregação do espaço público da praia. Uma lição do que nunca fazer…

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